Existe uma pergunta que pode parecer simples, mas que, quando realmente permitimos que ela entre em nosso pensamento, pode provocar uma profunda reflexão:
Por que será que, algumas vezes, viramos as costas para a nossa Natureza e queremos muito nos afastar ou não contar com ela?
Talvez porque aquilo que somos verdadeiramente nem sempre combina com aquilo que aprendemos que deveríamos ser.
Desde muito cedo, começamos a receber informações sobre como devemos pensar, agir, falar, escolher e até sentir. A família nos ensina algumas coisas. A escola acrescenta outras. A sociedade estabelece padrões. A religião apresenta crenças. Os relacionamentos deixam marcas. E, aos poucos, vamos construindo uma ideia sobre quem somos.
Mas será que essa ideia corresponde realmente à nossa Natureza?
Ou será que, em algum momento, começamos a confundir aquilo que somos com aquilo que aprendemos a ser?
A nossa Natureza não desaparece
Quando falamos em Natureza, não estamos falando apenas da personalidade, dos hábitos ou das características que desenvolvemos ao longo da vida.
Existe algo mais profundo.
Podemos pensar na nossa Natureza como aquilo que existe em nós antes de todas as máscaras que aprendemos a utilizar para viver no mundo.
É a nossa essência, nossa maneira particular de experimentar a existência, nossa capacidade de sentir, perceber, amar, aprender e evoluir.
Podemos passar muitos anos tentando fugir de determinadas características nossas, tentando mudar aquilo que não aceitamos ou desejando ser completamente diferentes.
Mas fugir de algo que faz parte de nós não significa necessariamente que aquilo deixou de existir.
Às vezes, apenas aprendemos a escondê-lo.
Quando começamos a rejeitar quem somos
Imagine uma criança que naturalmente é sensível, mas que ouve repetidamente que precisa ser forte.
Ela aprende a esconder suas lágrimas.
Uma pessoa que gosta de silêncio pode crescer acreditando que precisa estar sempre cercada de outras pessoas para ser aceita.
Alguém que possui uma maneira diferente de pensar pode começar a esconder suas opiniões porque aprendeu que ser diferente traz rejeição.
Pouco a pouco, vamos criando mecanismos para nos adaptar.
E adaptação é importante.
O problema começa quando, para sermos aceitos, precisamos nos afastar tanto de nós mesmos que já não sabemos mais onde termina aquilo que aprendemos e onde começa aquilo que realmente somos.
É nesse momento que podemos começar a sentir um vazio difícil de explicar.
Por fora, aparentemente está tudo bem.
Por dentro, porém, existe uma sensação de que alguma coisa está faltando.
O ego pode nos convencer de que precisamos fugir
Talvez uma das maiores dificuldades do processo de autoconhecimento seja perceber que nem sempre aquilo que pensamos sobre nós mesmos representa a nossa essência.
O ego constrói uma identidade.
Ele precisa saber quem somos, como devemos agir, o que devemos defender e até o que devemos rejeitar.
E, quando alguma característica nossa ameaça essa identidade construída, o ego pode reagir tentando afastá-la.
É como se dissesse:
"Isso não combina comigo."
"Eu não sou assim."
"Não preciso disso."
"Quero ser diferente."
Mas será que realmente não precisamos?
Ou estamos apenas tentando eliminar de nós algo que ainda não compreendemos?
Talvez seja por isso que o autoconhecimento não seja simplesmente descobrir qualidades escondidas.
Ele também envolve olhar para aquilo que rejeitamos em nós.
Aquilo que incomoda pode estar tentando nos ensinar alguma coisa
Nem tudo aquilo que sentimos precisa ser imediatamente eliminado.
Às vezes, uma emoção difícil pode revelar uma necessidade.
Uma reação exagerada pode mostrar uma ferida.
Uma insegurança pode apontar para algo que ainda precisa ser compreendido.
Uma característica que rejeitamos pode estar relacionada a uma experiência que não conseguimos aceitar.
Isso não significa que devemos justificar comportamentos prejudiciais ou permanecer presos às nossas limitações.
Significa apenas que existe uma diferença entre transformar algo e simplesmente tentar expulsá-lo de nós.
A transformação nasce da compreensão.
A rejeição nasce, muitas vezes, do medo.
Será que estamos tentando viver contra a nossa própria Natureza?
Essa talvez seja uma pergunta importante para levarmos conosco:
Quantas coisas fazemos atualmente porque realmente desejamos e quantas fazemos porque acreditamos que deveríamos desejá-las?
Quantas escolhas são verdadeiramente nossas?
Quantos sonhos foram construídos por nós?
Quantos foram colocados dentro de nós por outras pessoas?
Às vezes, passamos tanto tempo tentando corresponder às expectativas externas que esquecemos de perguntar o que existe dentro de nós.
E isso pode acontecer até mesmo dentro de processos espirituais.
Podemos começar a acreditar que precisamos ser mais evoluídos, mais tranquilos, mais desapegados, mais amorosos ou mais conscientes.
E, paradoxalmente, podemos transformar a própria busca pela evolução em mais uma forma de rejeitar quem somos.
Talvez a evolução não esteja em negar a nossa Natureza.
Talvez esteja em compreendê-la e transformá-la conscientemente.
Aceitar não significa permanecer igual
Aceitar a nossa Natureza não significa dizer:
"Eu sou assim e nunca vou mudar."
Isso seria apenas utilizar o autoconhecimento como justificativa para permanecer parado.
Aceitar é olhar para aquilo que existe em nós sem precisar fugir imediatamente.
É conseguir dizer:
"Isso também faz parte da minha história. O que posso aprender com isso?"
A partir daí, podemos começar a transformar aquilo que precisa ser transformado.
A diferença é enorme.
Quando rejeitamos uma parte de nós, gastamos energia tentando escondê-la.
Quando a compreendemos, podemos utilizar essa mesma energia para evoluir.
Talvez não precisemos nos afastar de nós mesmos
Existe uma tendência humana de acreditar que encontraremos a felicidade quando finalmente conseguirmos nos tornar outra pessoa.
Ser mais inteligente.
Mais bonito.
Mais rico.
Mais espiritualizado.
Mais confiante.
Mais reconhecido.
Mais parecido com aquilo que admiramos nos outros.
Mas talvez exista uma inversão nessa busca.
Talvez o caminho não seja nos afastarmos cada vez mais daquilo que somos para finalmente encontrar quem deveríamos ser.
Talvez seja justamente o contrário.
Precisamos nos aproximar de nós mesmos para descobrir aquilo que realmente podemos nos tornar.
Existe uma diferença profunda entre essas duas coisas.
O reencontro com a nossa essência
O autoconhecimento pode ser visto como um reencontro.
Não necessariamente com uma versão perfeita de nós mesmos, mas com uma versão mais verdadeira.
É olhar para nossas qualidades sem vaidade.
Para nossas dificuldades sem culpa.
Para nossas escolhas sem tantas justificativas.
Para nossas dores sem precisar transformá-las em identidade.
E, principalmente, para nossa história sem a necessidade de apagar aquilo que aconteceu.
Talvez a nossa Natureza não esteja pedindo para que voltemos ao passado.
Talvez ela esteja apenas esperando que parem de ignorá-la.
Uma reflexão para levar para dentro
Hoje, experimente fazer uma pergunta a si mesmo:
"Em quais aspectos da minha vida estou tentando ser alguém que não sou?"
Não procure uma resposta rápida.
Observe.
Talvez ela apareça em um relacionamento.
Talvez no trabalho.
Talvez na maneira como você se comporta diante da família.
Talvez em uma escolha que vem adiando.
Talvez em algo que deseja profundamente, mas não se permite viver.
E existe uma segunda pergunta ainda mais profunda:
"O que eu temo encontrar se parar de fugir de mim mesmo?"
Talvez essas perguntas não tragam respostas imediatamente.
Mas algumas perguntas não existem para serem respondidas rapidamente.
Existem para abrir portas.
Talvez o caminho seja voltar para dentro
Talvez, em algum momento da nossa caminhada, percebamos que passamos muito tempo tentando nos afastar de determinadas partes de nós mesmos.
Tentamos controlar.
Esconder.
Modificar.
Negar.
E, depois de tanto esforço, descobrimos que aquilo que procurávamos fora estava, de alguma maneira, esperando dentro de nós.
A nossa Natureza não precisa necessariamente ser combatida.
Ela precisa ser conhecida.
Porque somente quando conhecemos aquilo que somos podemos começar a compreender aquilo que ainda podemos nos tornar.
E talvez seja justamente aí que comece uma verdadeira jornada de autoconhecimento.
Se este texto despertou alguma coisa dentro de você, não pare por aqui. O autoconhecimento é construído pouco a pouco, através de muitas perguntas, reflexões e descobertas. Continue navegando pelo Encontre o Seu Eu Interior e conheça outros textos que podem ajudá-lo a olhar para dentro, compreender o ego, suas emoções e os caminhos da sua própria evolução.
Às vezes, uma simples reflexão pode ser o início de uma grande mudança.
E talvez a próxima pergunta que você encontrar seja justamente aquela que precisava fazer a si mesmo.

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