“Quando eu me preocupo com o que eu acho que o outro deve ser ou fazer eu perco o tempo que eu poderia fazer aquilo que eu gostaria que o outro fizesse.”
Essa frase traz uma reflexão aparentemente simples, mas que pode revelar algo muito profundo sobre a maneira como conduzimos nossa vida.
Quantas vezes ficamos incomodados porque alguém não age como gostaríamos? Esperamos que determinada pessoa seja mais carinhosa, mais responsável, mais compreensiva, mais presente, mais organizada ou simplesmente que faça aquilo que, em nossa visão, seria o correto.
E, enquanto esperamos que o outro mude, deixamos de fazer aquilo que está ao nosso alcance.
É nesse ponto que a reflexão começa a ganhar outra dimensão.
O problema não está apenas naquilo que o outro faz
É natural desejar determinadas atitudes das pessoas que fazem parte da nossa vida. Em qualquer relacionamento existem expectativas, acordos, necessidades e limites.
O problema começa quando passamos a dedicar grande parte da nossa energia tentando fazer com que o outro seja aquilo que acreditamos que ele deveria ser.
Pensamos:
“Ele deveria entender.”
“Ela deveria perceber.”
“Ele deveria tomar a iniciativa.”
“Ela deveria fazer por mim aquilo que eu faria por ela.”
“Se essa pessoa realmente gostasse de mim, faria diferente.”
Sem perceber, colocamos nossa satisfação nas mãos de outra pessoa.
E isso pode nos prender a uma espera que talvez nunca termine.
Enquanto espero o outro fazer, eu deixo de fazer
Existe uma pergunta importante escondida na frase:
Aquilo que eu gostaria que o outro fizesse poderia ser feito por mim?
Nem sempre a resposta será sim. Existem situações em que realmente dependemos da atitude de outra pessoa.
Mas em muitas situações existe uma possibilidade que não percebemos: podemos parar de esperar e assumir a iniciativa sobre aquilo que está sob nossa responsabilidade.
Se gostaria de receber mais carinho, posso começar oferecendo carinho.
Se gostaria de ter mais diálogo, posso iniciar uma conversa.
Se gostaria que alguém demonstrasse mais interesse, posso demonstrar aquilo que sinto.
Se gostaria de receber mais compreensão, posso começar tentando compreender.
Isso não significa aceitar tudo, fazer tudo pelo outro ou abrir mão das próprias necessidades.
Significa apenas perceber onde termina a responsabilidade do outro e onde começa a nossa.
O tempo perdido tentando mudar o outro
Talvez um dos maiores desperdícios da vida seja tentar administrar aquilo que não está sob nosso controle.
Gastamos pensamentos imaginando o que o outro deveria fazer.
Criamos diálogos dentro da nossa cabeça.
Relembramos situações antigas.
Ensaiamos respostas.
Ficamos esperando uma determinada atitude.
Sentimos raiva porque ela não acontece.
E, durante todo esse processo, nossa própria vida continua passando.
O curioso é que muitas vezes não estamos apenas esperando uma mudança no outro.
Estamos esperando que o outro faça alguma coisa para que finalmente possamos nos sentir bem.
E essa é uma armadilha bastante sutil.
O desejo de controlar pode se disfarçar de preocupação
Às vezes acreditamos que estamos apenas preocupados com alguém.
Mas será que estamos realmente preocupados ou queremos que essa pessoa se comporte de acordo com aquilo que acreditamos ser melhor?
Existe uma diferença.
Quando me preocupo genuinamente, posso oferecer ajuda, orientação ou presença.
Depois disso, preciso compreender que o outro possui o direito de escolher.
Quando quero controlar, entretanto, começo a acreditar que sei como aquela pessoa deveria viver.
E quanto mais ela se distancia daquilo que espero, maior se torna minha frustração.
Nesse momento, o problema já não está somente na atitude do outro.
Está também na minha dificuldade de aceitar que o outro é outro.
Cada pessoa está vivendo a própria experiência
No caminho do autoconhecimento, começamos a perceber que cada pessoa possui uma história, uma forma de enxergar a realidade, suas próprias limitações, aprendizados e escolhas.
Isso não significa considerar todas as atitudes corretas.
Não significa permanecer em relacionamentos que nos fazem mal.
Não significa permitir desrespeito.
Significa compreender que não temos o poder de viver pelo outro.
Podemos conversar.
Podemos aconselhar.
Podemos estabelecer limites.
Podemos decidir permanecer ou partir.
Mas não podemos obrigar alguém a sentir, pensar ou agir como nós gostaríamos.
E talvez uma parte importante da maturidade esteja justamente em reconhecer essa realidade.
E se eu fizer aquilo que gostaria que o outro fizesse?
Essa é a parte mais transformadora da frase.
Em vez de perguntar:
“Por que o outro não faz?”
podemos começar a perguntar:
“O que eu posso fazer?”
Essa mudança parece pequena, mas modifica completamente nossa posição diante da vida.
Saímos da condição de quem espera e passamos para a condição de quem age.
Se quero mais gentileza, posso ser gentil.
Se quero mais diálogo, posso conversar.
Se quero mais presença, posso estar presente.
Se quero mais amor, posso expressar amor.
Se quero mais paz, posso observar aquilo que dentro de mim alimenta conflitos.
E existe algo ainda mais profundo nisso: talvez, quando começamos a fazer aquilo que gostaríamos que o outro fizesse, descubramos que não dependíamos tanto da atitude dele quanto imaginávamos.
Fazer a minha parte não significa fazer a parte do outro
É importante não confundir responsabilidade pessoal com carregar o mundo nas costas.
Não precisamos fazer tudo sozinhos.
Não precisamos justificar a ausência do outro.
Não precisamos aceitar uma relação desequilibrada simplesmente porque decidimos parar de cobrar.
Fazer a nossa parte significa reconhecer aquilo que pertence a nós.
O restante pertence ao outro.
Se eu ofereço diálogo e o outro não quer conversar, essa escolha é dele.
Se demonstro carinho e não recebo o mesmo, posso decidir o que fazer com essa realidade.
Se ajudo alguém e essa pessoa não retribui, preciso compreender que minha escolha de ajudar foi minha.
O autoconhecimento não elimina a necessidade de estabelecer limites.
Pelo contrário.
Quanto mais nos conhecemos, mais conseguimos perceber quais limites precisamos estabelecer.
O ego gosta de dizer como o outro deveria ser
Existe também uma relação interessante entre essa reflexão e o ego.
O ego costuma criar imagens de como as pessoas deveriam se comportar para que nossa realidade corresponda às nossas expectativas.
Ele compara.
Julga.
Exige.
Cria regras.
“Uma pessoa que me ama deveria agir assim.”
“Um amigo verdadeiro deveria fazer isso.”
“Um filho deveria se comportar daquela maneira.”
“Um parceiro deveria entender sem que eu precisasse explicar.”
Mas será que essas regras pertencem à realidade ou pertencem à nossa interpretação da realidade?
Essa pergunta pode ser desconfortável.
Porque muitas vezes percebemos que não estamos sofrendo apenas pelo que aconteceu.
Estamos sofrendo pela diferença entre aquilo que aconteceu e aquilo que acreditávamos que deveria acontecer.
Talvez a liberdade esteja em voltar para si
Quando deixamos de gastar tanta energia tentando modificar o outro, algo começa a acontecer.
Voltamos para nós mesmos.
Voltamos para aquilo que podemos escolher.
Voltamos para nossas atitudes.
Voltamos para nossos sentimentos.
Voltamos para nossas próprias necessidades.
E então surge uma possibilidade muito interessante:
usar o tempo que antes era gasto cobrando o outro para construir a vida que desejamos viver.
Talvez não possamos fazer com que alguém seja mais carinhoso.
Mas podemos ser mais carinhosos.
Talvez não possamos fazer alguém compreender nossa dor.
Mas podemos aprender a expressá-la melhor.
Talvez não possamos fazer alguém tomar determinada decisão.
Mas podemos tomar as decisões que dizem respeito à nossa própria caminhada.
E isso muda tudo.
O outro não precisa mudar para que eu comece
Talvez essa seja uma das maiores lições dessa reflexão.
Frequentemente adiamos nossas próprias atitudes esperando uma mudança externa.
“Quando ele mudar, eu faço.”
“Quando ela entender, eu converso.”
“Quando aquela pessoa tomar uma atitude, eu sigo em frente.”
Mas e se não houver mudança?
Quanto tempo da nossa vida permanecerá parado?
Não precisamos esperar que o outro se torne aquilo que imaginamos para começarmos a viver.
Podemos começar agora.
Não porque o outro esteja certo.
Não porque aquilo que desejamos não seja importante.
Mas porque a nossa vida também merece acontecer enquanto esperamos.
Uma reflexão para levar consigo
Hoje, experimente observar uma situação que esteja causando incômodo.
Pergunte a si mesmo:
“O que exatamente eu gostaria que essa pessoa fizesse?”
Depois pergunte:
“Existe alguma parte disso que eu mesmo posso fazer?”
E, finalmente:
“Quanto tempo da minha vida estou gastando esperando uma atitude que pertence ao outro?”
Talvez essas perguntas não tragam respostas imediatas.
Mas podem abrir uma porta para uma percepção diferente.
Porque o autoconhecimento não consiste apenas em descobrir quem somos.
Também consiste em perceber onde estamos colocando a responsabilidade pela nossa própria felicidade.
Talvez você não precise esperar
A vida é feita de escolhas, e muitas delas estão diante de nós enquanto permanecemos olhando para aquilo que o outro não fez.
Talvez aquela pessoa nunca faça exatamente o que você gostaria.
Talvez ela não pense como você.
Talvez não compreenda aquilo que você gostaria que compreendesse.
E talvez você precise aceitar essa realidade para descobrir o que pode fazer a partir dela.
Não podemos escolher pelo outro.
Mas podemos escolher por nós.
Podemos mudar nossa atitude.
Podemos estabelecer limites.
Podemos conversar.
Podemos partir.
Podemos permanecer.
Podemos perdoar.
Podemos recomeçar.
Podemos, principalmente, parar de entregar ao outro o tempo que poderíamos utilizar para construir aquilo que desejamos viver.
E talvez seja justamente aí que comece uma nova forma de liberdade.
Enquanto você espera que o outro faça, seja ou mude, o que você poderia estar fazendo por si mesmo?
Continue sua jornada de autoconhecimento
Se esta reflexão despertou alguma coisa dentro de você, não pare por aqui.
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Às vezes, uma simples reflexão é suficiente para começar uma grande mudança.
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